Antes de corrigir, é preciso compreender |Formação desafia educadoras de infância a olhar para o comportamento infantil à luz do desenvolvimento, da relação e da autorregulação

Uma criança chora porque a atividade terminou. Outra não consegue esperar pela sua vez. Há quem recuse participar, quem se levante constantemente, quem reaja com agressividade perante uma pequena frustração. São situações familiares a qualquer sala de educação de infância. Mas serão, necessariamente, comportamentos a corrigir?
Foi a partir desta pergunta, ainda que nem sempre formulada desta maneira, que se desenvolveu a formação“Desenvolvimento Infantil e Estratégias Pedagógicas”, dinamizada pela psicóloga educacionalCéu Henriques, do Serviço de Psicologia e Orientação do Externato Paulo VI, dirigida às educadoras de infância da instituição.
Ao longo da sessão, o desenvolvimento dos 0 aos 10 anos foi abordado nas suas diferentes dimensões, procurando relacionar aquilo que a investigação e o conhecimento psicológico nos dizem sobre a criança com as decisões que, todos os dias, os profissionais de educação tomam na sala.
O COMPORTAMENTO TAMBÉM COMUNICA
Uma das ideias centrais da formação foi a co-regulação. Antes de conseguir regular as próprias emoções de forma autónoma, a criança precisa da presença de um adulto que a ajude a recuperar a calma.
A lógica é simples, mas pode mudar uma intervenção inteira: perante uma criança em grande desregulação emocional, o primeiro passo não será necessariamente explicar, repreender ou pedir que se acalme. É o adulto que precisa, antes de mais, de se regular.
Baixar o tom de voz, reconhecer a emoção, permanecer presente e só depois corrigir são estratégias apresentadas como parte deste processo. Validar o que a criança sente não significa concordar com o seu comportamento; significa reconhecer a emoção enquanto se mantêm limites claros.
É neste contexto que surge uma das frases que melhor resume a abordagem proposta na formação: “Primeiro liga-te, depois corrige.”
O princípio estende-se à leitura do próprio comportamento. Uma criança que rejeita uma tarefa pode estar a revelar medo de falhar. Uma criança agressiva pode ainda não dispor de estratégias de autorregulação suficientemente desenvolvidas. Uma criança que não consegue permanecer sentada pode estar a procurar movimento ou responder a uma necessidade sensorial.
A questão deixa, assim, de ser apenas “como fazemos para que pare?” e passa a incluir uma outra: “o que nos estará este comportamento a dizer?”
DAR ESPAÇO À ESCOLHA, À CURIOSIDADE, E À AUTONOMIA
Motivar uma criança também não passa necessariamente por oferecer recompensas. A formação distinguiu a motivação extrínseca da motivação intrínseca e destacou a importância de criar condições para que a criança encontre razões próprias para se envolver.
Autonomia, competência, pertença, novidade e curiosidade surgem como elementos importantes. Na prática, isso pode significar oferecer escolhas simples, propor desafios ajustados às capacidades da criança ou envolver o grupo na definição de projetos e atividades.
É uma mudança subtil: em vez de pensar apenas em como conseguir que a criança faça, pensar também em como criar condições para que queira fazer.
A LINGUAGEM QUE USAMOS TAMBÉM EDUCA
Outro dos eixos da formação foi a comunicação com as crianças.
Agachar-se ao nível da criança, manter um tom de voz calmo e firme, utilizar frases curtas e concretas e dizer aquilo que se espera que a criança faça, em vez de formular apenas uma proibição, são estratégias simples que podem fazer diferença na relação pedagógica.
Há, depois, uma dimensão menos visível, mas particularmente importante: as palavras que usamos para descrever uma criança podem transformar-se na forma como ela própria se vê.
Dizer “não terminou a tarefa” descreve um comportamento. Dizer “é preguiçoso” atribui-lhe uma característica. A diferença parece pequena, mas é pedagogicamente significativa.
A proposta apresentada na formação passa por privilegiar factos observáveis, reconhecer progressos, valorizar o esforço e utilizar o erro como oportunidade de reflexão e aprendizagem.
E esta linguagem não termina à porta da sala. A relação com as famílias foi também abordada, com destaque para a comunicação objetiva, respeitosa e colaborativa: falar de situações concretas, escutar, evitar comparações e procurar, em conjunto, estratégias de apoio.
EDUCAR PARA A RELAÇÃO
A empatia foi outro dos temas trabalhados. Entre os 4 e os 6 anos desenvolve-se progressivamente a capacidade de compreender que outra pessoa pode ter uma perspetiva diferente da própria. Mas compreender o outro não acontece de forma automática.
Histórias, jogos de papéis, rodas de emoções, momentos de diálogo e situações em que as crianças são convidadas a olhar para o mesmo acontecimento a partir de diferentes perspetivas podem ajudar a construir essa competência.
Também aqui o adulto tem um papel decisivo: mais do que ensinar a empatia através de uma definição, modelá-la na forma como fala, escuta e responde.
UMA ESCOLA ATENTA À DIFERENÇA
A formação dedicou ainda um espaço às eurodivergências, procurando ajudar as educadoras a reconhecer sinais que possam justificar uma observação mais aprofundada e a conhecer estratégias pedagógicas inclusivas.
Rotinas previsíveis, apoios visuais, instruções curtas, tarefas divididas em etapas, pausas sensoriais e de movimento, reforço positivo e articulação com a família e o Serviço de Psicologia e Orientação foram algumas das estratégias apresentadas.Com uma ressalva fundamental: um sinal isolado não constitui um diagnóstico. Em caso de dúvida, a orientação apresentada passa pela observação, triagem e articulação com os profissionais adequados.
CINCO IDEIAS QUE FICAM DA FORMAÇÃO
1. A criança regula-se primeiro com o outro. A presença calma do adulto é parte da resposta.
2. O comportamento tem uma função.Antes de corrigir, importa procurar compreender o que está a ser comunicado.
3. A motivação também nasce da autonomia.Escolher, participar e sentir-se competente pode aumentar o envolvimento.
4. As palavras deixam marcas.Descrever comportamentos é diferente de rotular crianças.
5. Compreender não significa deixar fazer tudo.É possível validar emoções, manter limites e educar com firmeza e respeito.
No final, talvez a principal mensagem da formação não esteja numa estratégia concreta, mas numa mudança de olhar.
Porque, na educação de infância, compreender o que uma criança ainda não consegue fazer sozinha é também uma forma de saber como ajudá-la a chegar lá. E, por vezes, a intervenção mais educativa começa precisamente no momento em que o adulto consegue parar, respirar e olhar de novo.



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